Vinho Kalash: uma tradição sagrada que resiste nas montanhas do Paquistão

Há vinhos que a gente bebe. E há vinhos que a gente vive . O vinho Kalash é esses: não nasce para brilhar numa garrafeira, nasce para abençoar mãos, limpar facas, acompanhar danças e segurar uma identidade inteira no sítio — ali, no meio das montanhas do Hindu Kush, no norte do Paquistão. E eu, que cresci a ouvir falar de vindimas como quem fala de família à mesa (olá, Alentejo), fico logo com a pele arrepiada: isto não é só inserido… é memória engarrafada.

Os Kalash — um povo etnorreligioso com cerca de 4.000 pessoas — mantêm uma tradição de vinho há mais de mil anos, num país muçulmano que restringe fortemente o álcool. Parece contradição? É antes de um milagre teimoso, daqueles que só a terra sabe fazer

.

O que torna o vinho Kalash sagrado (e não apenas “uma bebida”)

Para os Kalash, o vinho chama-se da (na língua kalasha). E não é “para alegre ficar” — é para purificar . O Sayed Gul Kalash, oficial de campo da Direção de Arqueologia e Museus da província de Khyber Pakhtunkhwa (KPK) e também ativista e embaixador cultural, explica que este povo vive nos vales de Birir, Bumburet e Rumbur , no distrito de Lower Chitral, uma das regiões mais remotas do mundo.

Eles praticam uma forma de xamanismo, celebram festivais sazonais com canto, dança, vinho e ofertas . Não possuem textos sagrados escritos; a tradição passa de boca em boca, como as melhores receitas de família.

E atenção a este detalhe: o vinho entra mesmo nos rituais. Segundo Gul Kalash, antes de sacrificarem cabras , purificam as mãos e a faca com vinho, e também salpicam vinho para purificar espaços. No fundo, o vinho Kalash funciona como uma espécie de “água benta” da montanha — só que com uva e história.

Vindima com regras: não vale manda a uva, não manda a pressa

No Vale de Birir , há uma regra clara: durante os meses de verão, é proibido colher uvas . A razão é simples e duradoura: as colheitas têm diminuído por causa das alterações climáticas e das inundações provocadas pelo degelo glaciar . Logo, cada cacho conta. A uva tem de amadurecer bem, sem atalhos.

Quando chega o outono, os Kalash celebram o Festival Phō e coletam uvas pretas em grandes cochos de madeira . Depois vem a parte que parece saída de uma vindima antiga, daquelas em que a tradição ainda manda mais do que a tecnologia: rapazes virgens e homens entram nos cochos e pisam as uvas com os pés bem lavados . Chão-chão, como quem amassa pão para o domingo.

Ilustração da pisa tradicional de uvas pretas em cocho de madeira para fazer vinho Kalash.

O sumô é guardado em bidões de plástico herméticos para fermentar até um mês. Quando o vinho “ganha corpo”, fica ácido e doce ao mesmo tempo.

E há quem compare. O Zeeshan, documentarista que prefere ser identificado apenas pelo primeiro nome (porque beber é crime no Paquistão), diz uma coisa deliciosa: o vinho Kalash é “muito mais refinado” do que o vinho francês do mercado negro, que lhe parece “muito mais apagado”. Traduzindo à mesa: um pica, o outro adormecido.

Fermentar nas montanhas é um jogo de equilíbrio (e um erro pode estragar tudo)

Em Bumburet , a produção tende a ser mais doméstica do que comunitária. O Faizi Khan, dono de uma pensão simples, tem o vinho desta época a fermentar num bidão embrulhado em várias mantas , guardado numa salinha sem janela. Parece um pouco científico, mas há ali saber acumulado.

Ilustração de bidões de fermentação embrulhados em mantas numa arrecadação tradicional.

Ele explica: nem todas as famílias fazem vinho, mas todas as casas têm algum para purificação.

O vinho também aparece no dia-a-dia: segundo Khan, o teor alcoólico é baixo, no máximo 6% a 7% , e embebedar-se é malvisto. Além disso, use-no para higienizar mãos e utensílios e até para tratar feridas — porque desinfetantes não eram simples de arranjar na região, principalmente antes da Covid-19.

O Imran Kabir, comerciante que fermenta cerca de 50 a 60 litros por ano , diz que se aprende a fazer vinho em criança, com supervisão dos pais. E deixa um aviso que eu, honestamente, ouço como quem ouve um velho mestre da adega:

  • É preciso dar oxigénio suficiente à levedura

  • E ao mesmo tempo manter níveis seguros de dióxido de carbono

  • Um erro pequeno pode estragar o vinho

  • O bidão pode até rebentar

  • E o pior cenário é alguém ficar muito doente

Antes, usavam o p’hund (um silo tradicional em pedra). Mas hoje fazem menos vinho e a manutenção é mais difícil.

Pergunta honesta: nossas tradições no mundo exigem tanta precisão… sem laboratório, sem manual, só com olho, ouvido e experiência?

Pureza e impureza: o mundo Kalash explicado de forma simples

Há uma ideia central na visão do mundo Kalash: pureza e impureza . Muhammad Kashif Ali, historiador da Universidade de Gujrat, estuda o Kalash há 20 anos e explica que este conceito é aplicado até ao espaço.

Em termos muito claros:

  • Lugares altos tendem a ser vistos como mais puros

  • Fundos de vales e leitos de rios são vistos como mais impuros

  • Pessoas, animais e objetos podem ser puros ou impuros

  • E, importante: também podem ser purificados

As montanhas, para eles, não são apenas cenários — são quase uma régua moral. Picos puros, fundos impuros. E o vinho entra aqui como ferramenta de passagem: limpa, prepara, autoriza .

Gul Kalash conta ainda uma tradição antiga: um xamã poderoso em Bumburet teria batido com a cabeça no chão, escavado por ali abaixo e surgido em Birir com um cacho de uvas “apanhadas do céu” . Declarou o fruto puro e decretou que todos os Kalash deveriam usar, assim como o sumô, nos rituais.

Se isto não é uma história com sabor a lenda — daquelas que se contam ao lume — então não sei o que é.

Ilustração de ritual de purificação com vinho: mãos e utensílio lavados com vinho Kalash.

Origens misteriosas e a vida feita por estações

Pouco se sabe com certeza sobre as origens dos Kalash. O Kabir fala de Tsiyam , uma pátria mítica ancestral, lembrada pela tradição oral.

Durante muito tempo, houve quem defendesse que descendiam dos exércitos gregos de Alexandre, o Grande , nas campanhas entre 327 e 325 aC Mas o Dr. Abdul Samad, secretário do departamento de Turismo, Cultura, Arqueologia e Museus do KPK, diz que testes genéticos e evidências arqueológicas indicam que a linhagem ancestral é anterior a Alexandre. Ou seja: é uma comunidade indígena .

O Dr. Ali acrescenta que provavelmente migraram do Nuristão (Afeganistão) há 1.500 a 2.000 anos para a região de Chitral, onde viveram tanto como governantes como governados. Nos últimos 300 anos, com mudanças de dinastias, impérios e fronteiras, sofreram restrições e outras graduais e voluntárias. E hoje, Birir, Bumburet e Rumbur são os últimos redutos.

Vinho Kalash e turismo: ganhe a vida sem perder o respeito

Os Kalash eram tradicionalmente pastores. A economia começou a mudar quando, nos anos 1970, foi aberta a primeira rota de jipe ​​pelo Hindu Kush. Era uma estrada perigosa, divertida em falésias, mas trouxe turistas locais e estrangeiros — curiosos para conhecer “o último povo pré-islâmico” e os seus festivais.

Em Bumburet, mais do que em Birir ou Rumbur, alguns Kalash passaram a ganhar dinheiro como:

  • doações de pensões

  • motoristas

  • guias

  • artesãs

E sim, há também quem vende vinho e tara (uma aguardente, feita de amoras e alperces) “por baixo da mesa”, em garrafas recicladas. O próprio Khan e Kabir falam disso: variações de preços, pouco lucro, muito risco — porque pode dar problemas legais e também provocar assédio ou hostilidade de comunidades muçulmanas vizinhas.

Khan diz, com aquela franqueza que não pede licença:

“Aqui não há negócios. Não há indústria para as pessoas trabalharem. É assim que o nosso povo ganha a vida e compra pão.”

E aqui entra um ponto sensível: num Paquistão conservador, com tantas restrições, muitos visitantes chegam com ideias erradas sobre os Kalash — acham que, por não serem muçulmanos, são “liberais como ocidentais”. E isso dá asneira.

Segundo Khan, há quem bebe tara, fica (ou finja ficar) bêbado, e depois assedie meninas e mulheres , principalmente durante festivais. Confundem dança ritual com “outra coisa”, quando na verdade é estímulo .

Resultado? A comunidade está mais desconfiada. Algumas aldeias evitam vender; outras continuam, mas discretamente.

Ilustração editorial de um festival Kalash com dança em círculo num vale montanhoso.

Se fores lá um dia: respeito primeiro, curiosidade depois

Eu sei como é: a tentativa de “provar o exótico” puxa. Mas há uma linha que não se pisa — tal como uma vinha não se pisa depois da chuva.

Se visitar os vales Kalash, leva isto na cabeça (e no coração):

  • Não presuma que está num “parque temático cultural”

  • Não sexualiza danças, roupas ou festas

  • Pergunta antes de fotografar pessoas, principalmente mulheres

  • Respeita regras locais e o sentido religioso dos rituais

  • Vai para aprender , não para “colecionar histórias” como troféus

Pergunta simples: quer ser lembrado como visitante que trouxe respeito… ou como mais um problema?

Minimal editorial infographic map, clean lines, textured paper background, outline of Pakistan with northern region highlighted, small marker for Chitral and labels: Birir, Bumburet, Rumbur, subtle mountain icon for Hindu Kush, muted earthy palette, modern magazine style, no extra decorations, no photorealism, no watermark, 16:9

Mapa ilustrado: localização dos vales Kalash (Birir, Bumburet e Rumbur) em Chitral, norte do Paquistão.

Conclusão: um vinho que segura uma comunidade inteira

O vinho Kalash não é só tradição. É ferramenta, símbolo, escudo. Num lugar onde o gelo invade as vinhas, onde a lei aperta e os mal-entendidos magoam, o vinho continua a cumprir o seu papel: purificar, unir, proteger .

No fundo, é como uma mesa bem posta no Alentejo: às vezes não resolve tudo, mas ajuda a manter a família junta, a conversa viva e a dignidade de pé.

dobradinha Xico Sabido