Susumaniello da Puglia: a uva esquecida que agora brilha no copo
Há uvas que nascem com holofotes. E há outras que passam décadas a fazer o trabalho duro, caladinhas, como quem anda na vinha de costas dobradas e ninguém repara. O Susumaniello da Puglia era mesmo isso: uma casta indígena com nome cantado, difícil de pronunciar para quem não é da bota de Itália, e com carreira quase toda feita “a ajudar os outros” em lotes.
Só que, de uns anos para cá, a conversa mudou. O tal “desconhecido” começou a aparecer em cartas de vinho, nas sugestões de sommeliers e nas recomendações de diretores de vinho. Scott Ades, presidente da Dalla Terra (importador de vinhos e espirituosos italianos), diz que “nos últimos cinco anos e tal” tem sido um dos vinhos com maior crescimento no portefólio deles. E quando um vinho começa a mexer assim… cheira-me a viragem.

De uva de lote a estrela: como o Susumaniello da Puglia quase desapareceu
Nasceu no norte do Salento, com areia nos pés e brisa na cara
O Susumaniello vem da zona de Brindisi, no norte do Salento. Ali, os solos arenosos e as brisas costeiras ajudam a manter a acidez e a domar o calor típico da região. A Tenute Rubino, casa muito ligada ao renascimento desta uva, sublinha precisamente isso.
Romina Leopardi, diretora de marketing e comunicação da Tenute Rubino, resume a ideia de forma clara: esta variedade está profundamente ligada ao lugar onde nasceu, e a “identidade mais verdadeira” aparece mesmo na Puglia, onde clima, solos e tradição se juntam para moldar o carácter.
O problema? A produtividade cai — e o mercado não perdoa
A meio do século XX, a Puglia virou fonte de vinho a granel. E quando a lógica é volume, o coração do viticultor fica preso à calculadora. Os produtores foram atrás de castas muito produtivas.
O Susumaniello, apesar de ter uma alcunha simpática — “o burrico”, por conseguir “carregar” grandes produções — tem um senão importante: ao fim de cerca de 15 anos, a produção começa a descer. Como explica Leopardi, foi por isso que a casta chegou a estar em risco de extinção.
E aqui entra aquela ironia bonita do campo: a uva que carregava muito, cedo demais, acabou quase abandonada quando deixou de “dar tanto”.
Os primeiros a acreditar viram ali um símbolo
Alguns produtores, porém, ficaram. A Varvaglione, uma casa de várias gerações em Taranto, foi uma dessas apostas. Marizia Varvaglione (quarta geração) chega a dizer que o Susumaniello “tem potencial para ser um símbolo de toda a região”.
Mas a grande reviravolta só ficou mesmo clara no fim dos anos 1990 e início dos 2000, quando começaram micro-vinificações (testes pequenos, controlados) e muita gente percebeu que havia ali mais do que músculo: havia elegância.
Leopardi conta que, nesses primeiros ensaios, descobriram uma elegância e complexidade inesperadas. Ou seja: o Susumaniello deixou de ser “uvas para misturar” e começou a ser “vinho com identidade própria”.
Porque é que o Susumaniello da Puglia está a dar que falar agora
A cor engana — o palato surpreende
O Susumaniello costuma ter cor carregada, quase tinta-da-china. A expectativa, para muita gente, é: “vai ser um tinto pesado, maduro, daqueles que cansam”.
Só que não. O diretor de vinhos Torrey Grant (Nova Iorque) descreve precisamente esse choque: esperava uma bomba frutada e compotada… e encontrou algo mais elegante e leve do que parecia, até com teor alcoólico mais baixo do que imaginava.
E isto, hoje em dia, vale ouro. O mundo do vinho anda menos apaixonado por “martelos culinários” e mais à procura de equilíbrio.
Comparações que ajudam (sem prender o vinho numa caixa)
Quando precisamos de explicar um vinho a alguém, às vezes dá jeito comparar — como quem aponta um caminho numa estrada de terra batida.
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Alessandro Falvo (Masseria Li Veli) diz que, se tivermos de comparar, pode lembrar um pouco Pinot Noir, pelas notas de fruta vermelha, especiarias doces e ervas aromáticas, com toques ocasionais de couro e tabaco.
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Scott Ades descreve-o como uma mistura simpática: qualidades de Cabernet Sauvignon e Merlot (castas “fáceis de gostar”), com a frescura da acidez italiana.
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Torrence O’Haire (Chicago) coloca-o no mesmo corredor de vinhos como Gamay, Cinsault e Grenache, chamando-lhe “o equilíbrio perfeito entre interessante e descontraído”.
Repara no padrão: ninguém está a vendê-lo como um monstro. Estão a vendê-lo como um vinho com graça — e com nervo.
Também dá rosé com cabeça e sem peso
Outra pista de que a uva tem versatilidade: o Susumaniello também se dá bem em rosé. Marizia Varvaglione diz que o rosé pode ser “muito intenso e elegante”, ótimo para harmonizar com comida.
Ou seja: não é rosé de palhinha e piscina. É rosé com mesa, garfo e conversa.
O mundo do vinho apanhou finalmente o comboio (e o Susumaniello não precisou de mudar quem é)
Há modas que nascem da reinvenção. E há outras que nascem porque, de repente, o mundo fica com paladar para aquilo que sempre esteve lá.
O crescimento do Susumaniello parece ter muito de “lugar certo, hora certa”, por causa de tendências que vão além da Puglia:
1) Sede de tintos com sabor… sem fadiga
Importadores notam um apetite crescente por tintos saborosos, mas que não deixem a pessoa de rastos ao segundo copo. Ades conta que começou muito como vinho de restauração, mas hoje já vende bastante fora dos restaurantes, com esse lado a crescer mais depressa — sinal de que há curiosidade real do consumidor.
E há histórias deliciosamente simbólicas: a Dalla Terra colocou o Askos Susumaniello no Admirals Club da American Airlines em Miami. Pensei logo: uma uva antes “invisível” a ater num lounge de aeroporto… isto é quase poesia.
2) A moda dos “chillable reds” e rosés com estrutura
O Susumaniello encaixa bem na tendência de tintos que se bebem um bocadinho mais frescos e em rosés mais gastronómicos. Não é só um vinho para “beber por beber” — é um vinho que se senta à mesa sem fazer barulho.
3) Resiliência e futuro: a conversa do clima pesa
Falvo aponta um fator importante: castas nativas como o Susumaniello estão naturalmente adaptadas a condições quentes e podem ser menos vulneráveis às pressões das mudanças climáticas. Para quem planta a pensar em décadas, isto não é detalhe — é mapa do tesouro.
4) A procura do “lugar”, não do “gosto internacional”
Há cada vez mais gente à procura de vinhos com sotaque. Vinhos com terra nas unhas, digamos assim. Falvo nota que o Susumaniello sempre foi muito localizado e produzido por poucos, o que reforça a raridade e identidade.
Juntando tudo: o Susumaniello não ficou popular por se disfarçar. Ficou popular porque o mundo do vinho finalmente se alinhou com aquilo que ele sempre soube fazer.
Como beber Susumaniello da Puglia sem complicar

O que procurar (e o que não complicar)
Se queres explorar este estilo, eu iria por aqui:
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Procura “Susumaniello” no rótulo como casta principal/varietal.
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Fica atento a produtores que falam de origem e identidade (há casas muito ligadas ao renascimento, como Tenute Rubino e projetos como o Askos da Masseria Li Veli).
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Não entres a achar que “tinto do Sul = pesado”. Aqui a graça está, muitas vezes, no contraste.
À mesa: perguntas simples que ajudam
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Vais comer pratos mais leves, com ervas, legumes, carnes menos gordas? Este estilo tende a encaixar bem.
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Queres um tinto com cor e presença, mas sem aquela sensação de “tijolo”? Pode ser aqui.
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Estás farto de vinhos todos iguais? Então por que não dar uma oportunidade ao “burrico” que afinal corre bem?
E o serviço?
Sem fazer cerimónia: experimenta servi-lo um pouco mais fresco do que servias um tinto muito encorpado. Em certos dias, isso faz o vinho abrir como uma janela numa casa quente.
Conclusão: a tal uva “pequeno burro” afinal tinha asas
Gosto desta história porque é muito do campo: o que parece secundário, às vezes, só estava à espera do momento certo. O Susumaniello passou anos a viver na sombra de Primitivo e Negroamaro, a ajudar nos lotes, a carregar peso como o burriquito que lhe dá nome. E agora está a ser visto — não por ter mudado, mas por o mundo estar finalmente com olhos (e boca) para a sua elegância.
Se andas à procura de vinhos que sabem a sítio, que têm identidade e não precisam de gritar, o Susumaniello da Puglia pode ser uma bela surpresa.
